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ababelado mundo
afternoon crash car
berghof
esfera dos intocáveis
madrugada adentro
outra primavera
palavras ao meio
prolixa por amor à palavra
pulp
[16.4.09]
[7.4.09]
Vem sempre às quartas. Às vezes um pouco antes, outras depois do almoço. Tímido: ombros virados para baixo, a cara acompanhando, mãos inquietas. De tudo, gosto mesmo dos três ou cinco segundos logo que chega, nos quais deixa escapar um sorriso incerto e um olhar. Seria preciso congelar o fotograma para saber se num é imaginário. Não compra. Nem pergunta preços – mas consulta a tabelinha na coluna da esquerda. Outro dia sonhei com sua voz em outro rosto. Depois disso, passei a ouvi-la pelas quinas e perto da prateleira de livros a dois reais. Não fica muito, dez ou vinte minutos. Menos no dia da tempestade: aí passou mais de uma hora consultando as enciclopédias antigas – e tosssindo (tosse com frequência – e graça).
Prefere prosa à poesia - e isso não é tudo o que se precisa saber?
Kênia Freitas * 19:58
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[6.4.09]
da velha arte de perder o meu tempo
ando.
d-e-vagar.
parando:
olhos pros dois lados – e também para outros infinitos...
converso com as sombras
(e as sobras, e as sobras).
impassos.
‘inda num é o ano 01:
mais, c’est toujours pas triste!
Kênia Freitas * 19:24
Comentários:
[9.3.09]
O céu de Lisboa - Wim Wenders
F: Winter! Nossa! O que está fazendo em Lisboa?!
W: Dando umas voltas. Comendo um grande picolé. Nos tempos livres, tenho gravado sons para um filme sobre Lisboa. Nada de importante...
F: O meu filme? Não estou fazendo mais aquele filme.
W: É bom saber. Mesmo assim, obrigado pelo convite.
F: Mas isso foi há muito tempo! Você nunca apareceu.
W: Gozado… Quem está na sua frente? E quem morou na sua casa durante três semanas?
F: Ricardo, porque você não me falou? Você não fala muito, não é? O rapaz é mudo, sabe...
W: Talvez ele não quissesse que você soubesse...Talvez ele não devesse ser a única fonte de informação. Talvez eu até me tenha atrasado um bocado, mas isso é outra história. Agora estou aqui, não há dúvida.
F: Parece que está zangado comigo...
W: Pareço? Com você?! Qualquer semelhança com uma pessoa viva é pura coincidência.
F: Deixe-me mostrar-lhe uma coisa. (…)
Essa é minha cinemateca! Na nossa frente: uma enorme tela! Ou o que resta dela... A sala de projecção, que também é apenas recordação. As imagens já não são o que eram. Já não se pode confiar nelas. Todos o sabemos, você também sabe. Quando éramos jovens, as imagens contavam histórias e mostravam coisas. Agora só vendem histórias e coisas. Nós as vimos se transformar. Já nem sequer sabem mostrar as coisas! Esqueceram-se simplesmente. As imagens estão vendendo o mundo, numa grande liquidação.
Quando vim para Lisboa fazer este filme, julguei que conseguia fugir a isso. Falámos sobre isso, você se lembra? Queria filmar em preto-e-branco, com essa velha manivela... como o Buster Keaton em " The Cameraman". Percorrendo as ruas sozinho, um homem com uma camêra... e viva Dziga Vertov!... Fingindo que a história do cinema não existiu e que eu podia recomeçar do zero, cem anos mais tarde.
Mas não funcionou, Winter. Por algum tempo, pareceu funcionar, mas depois deu tudo errado.
Adoro esta cidade! Lisboa!
E a maior parte do tempo vi-a realmente... em frente aos meus olhos.
Mas apontar uma máquina de filmar é como apontar uma arma. E cada vez que a apontei, senti-me como se... se a vida se estivesse a escoar das coisas. E eu filmava e filmava, mas a cada rodar da manivela, a cidade recuava mais e mais, afastando-se mais e mais como o Gato Sorridente, da Alice. Nada! Estava ficando insuportável. Levei mesmo uma pancada.
Foi aí que lhe pedi ajuda. E, durante algum tempo, eu vivi com a ilusão de que o SOM poderia resolver tudo, que o seus microfone tiraria as minhas da escuridão. Mas não há mais esperança. É tudo em vão, Winter! Tudo em vão!
Mas há uma solução e estou trabalhando nisso. Escute: uma imagem que não foi vista não pode vender nada. É pura, e por conseguinte, verdadeira e bela. Numa palavra: é inocente. Enquanto nenhum olhar a contaminar, permanece em harmonia com o mundo. Se não for vista, a imagem e o objeto que ela representa, permanecem juntos. Sim, é apenas quando olhamos para a imagem, que a coisa... que ela contém... morre.
E cá está, Winter, a minha " biblioteca de imagens não vistas"! Todas estas imagens foram filmadas sem intervenção do olhar humano. Ninguém as viu enquanto foram gravadas, e ninguém as viu depois. Filmei-as todas de costas! Estas imagens mostram a cidade como ela é e não como eu desejaria que fosse. Seja como for, cá estão elas, no seu primeiro e doce sono da inocência, prontas a ser visionadas por alguma geração futura, com um olhar diferente do nosso. Não se preocupe, amigo, ambos estaremos mortos.
Ora pensa lá... As COlSAS e as lMAGENS sobreviver-nos-ão! Não poderemos vencê-las! Há que reconhecê-lo: As lMAGENS são lixo. Nós transformámo-las em lixo. O meu único adversário é o homem do lixo,o meu único inimigo, a mulher dos sacos...
(…)
W: Esta é uma mensagem para o Friedrich, o rei do mercado da imagem do lixo, o Dziga Vertov dos anos 90, o Einstein das imagens não vistas. Não se preocupe, não tem nada para se olhar. É apenas uma mensagem numa garrafa, ou melhor, num saco.
F: Muito engraçado, Winter!
W: Você gosta de sacos, não é? É o homem dos sacos, é a morsa...
Como você se perdeu...!
Essas imagens de brincar enganaram você e agora você está num beco sem saída, virado para a parede. Dê meia-volta e confie de novo nos seus olhos! Eles não estão nas suas costas. Confia na velha máquina de filmar. Ela ainda pode produzir imagens. Para que perde tempo produzindo imagens descartáveis, se você pode fazer imagens essenciais?! Com o seu coração, com celulóide...
(…)
W: Era tudo o que tinha para dizer. Os filmes podem cumprir a função para que foram inventados há 100 anos. Podem continuar a ser filmes. O seu amigo "Nada", Sr. Pessoa, escreveu algo que me comoveu: "À luz do sol, até os sons brilham!”. Você está aí sentado nesse carro como o tolo na colina! Vá lá, mexe-me esse rabo e acaba o seu filme... com uma ajudinha dos seus amigos.
Kênia Freitas * 20:16
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[15.2.09]
[1.2.09]
será que ele me acha...
nesses azulejos que me escondem?
peço e ignoram - só enquanto não volta.
entram: deus te abençoe, meu filho.
e vão: deus te guarde.
puseram-me nos azulejos rosas
- entre paredes brancas.
dizem que é minha.
insistem, mas eu sei.
é! teimam... sei bem.
dia desses, ele chega.
e, aí, vamos de vez.
saímos não; saio eu.
ele aqui nunca está.
nunca que volta.
às vezes, o espero na varanda
- varanda porta que ela fecha
fico prisioneira a janela,
que também nem é minha.
e que eles dizem... desconfio.
e, por hoje, eu ainda fico.
eu e a que fecha varanda porta
e repete que é minha casa
- vai dormir que ele volta amanhã,
me amparando pelo braço entre azulejos.
Kênia Freitas * 22:48
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[22.1.09]
doismilenove
aos pouquinhos.
limpando as paredes do quarto
- nalguns lugares, esfrego forte.
umas novas imagens:
nada muito permanente agora -
para que haja espaço --
dessa vez, é preciso.
músicas alegres no emepetrês
(ao ouvido, bem alto!).
entregar presentes.
pensar naquele roteiro,
que pode ser um romance,
- que é melhor como pode ser.
fazer 'x' na lista,
deixando algo por para o dia seguinte.
vezenquando: respirar.
chorar escondida,
estudar,
escrever.
escrever escrever.
Kênia Freitas * 22:32
Comentários:
[5.12.08]
nem tão sentimental assim
- "o nome dela é aurora"...
- claro que é...
- ...
- ...
.
Kênia Freitas * 22:03
Comentários:
[30.11.08]
Vida de república-neohippie-ecologicamente-correta!
Kênia Freitas * 20:30
Comentários:
[20.10.08]
Queria te escrever sobre as árvores contorcidas;
o céu amplo – como se Deus tivesse pisado distraído em uma porção da Terra;
o vento visível nos troncos inclinados;
as nuances imperceptíveis entre o verde e o amarelo;
as subidas que parecem anunciar o fim do mundo;
os dois segundos antes da água virar granizo e a chuva tempestade;
a beleza dos urubus sobre as estacas na cerca ou frutificando na ponta dos galhos secos
ou, só, sobre as inesperadas flores vermelho-sangue depois daquela curva.
Enfim, queria te dizer dessa minha geografia imaginária.
No entanto.
Já não estou mais onde escrevo:
cada palavra dá forma apenas a um renovado fingimento
- se ainda fossem fabulações...
Remonto genealogias e construo matrizes para continuar
e, no fim, não me encontro.
Não me sei.
E sinto – sem me situar.
Calo, esqueço, minto, re-invento em vão.
Volta – mas nunca se foi.
Não fui.
Como se cada viagem não fosse mais do que uma desculpa para permanecer;
a paisagem uma metáfora para você.
Paro
(pausa para você acender um cigarro).
Ando precisando de chão.
Reterritorializar-me.
De espaços infinitos e reconfortantes.
Algumas placas indicando direções
(talvez de um retorno).
Um radar para eu não ultrapassar o limite.
De novas fronteiras.
De menos você.
(De um ponto final que não esteja entre parênteses).
Kênia Freitas * 20:46
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